June 2026

Este ano fomos convidados a falar na conferencia IMEC em maio de 2026, no painel: "Combustiveis Alternativos, Uma Visao Partilhada: Alinhar Tecnologia, Formacao e Talento." Em primeiro lugar, gostaria de agradecer ao IMEC pelo convite e por criar um forum tao importante para discutir nao so os objetivos de descarbonizacao do setor, mas tambem a forma como acompanhamos as pessoas com seguranca ao longo dessa transicao.
Tenho refletido sobre um fio condutor dessa discussao, porque acho que merece mais atencao do que recebe. Quando falamos de descarbonizar o transporte maritimo, a conversa deriva quase magneticamente para combustiveis e maquinaria.
Tudo isso importa.
Mas a mensagem que continuamos a ouvir dos maritimos nao e "nao conseguimos aprender isto." Esta mais proxima de "por favor, nao nos enviem para uma nova realidade operacional apenas com formacao generica de sensibilizacao, um manual extenso e o pressuposto de que a experiencia com combustiveis convencionais se transfere automaticamente."
Esta lacuna, entre a tecnologia que estamos a implementar e a competencia que estamos a desenvolver, e a parte da transicao que menos discutimos e que mais nos devia preocupar.
O metanol, a amonia, o hidrogenio, as baterias e os sistemas hibridos alteram o quadro de risco. O comportamento a baixo ponto de inflamacao, a toxicidade, os perigos criogenicos e de alta tensao, as diferentes exigencias de ventilacao e dececao de gas: tudo isto reformula a forma como uma tripulacao tem de reconhecer um perigo, decidir em contexto de incerteza e comunicar quando uma situacao se torna anormal. E o enquadramento regulatorio, embora em evolucao, ainda esta a ser construido em torno de navios que ja estao em operacao.
A OMI aprovou as suas Diretrizes Interinas Genericas sobre formacao para maritimos em navios que utilizam combustiveis alternativos e novas tecnologias (STCW.7/Circ.25) no MSC 110, publicadas em setembro de 2025, com niveis basico e avancado adaptados as funcoes de cada maritimo. As diretrizes especificas para o metanol e a amonia so foram finalizadas no HTW 12 e aprovadas no MSC 111 em maio de 2026. A Maritime Just Transition Task Force, por sua vez, lancou os seus primeiros quadros de formacao interinos para amonia, metanol e hidrogenio em setembro de 2025, e tem sido clara ao afirmar que as competencias STCW atuais ainda nao cobrem totalmente as capacidades que estes combustiveis exigem.
Analisadas em conjunto, estas datas evidenciam um desafio importante de sequenciacao. Para que a transicao seja verdadeiramente justa, o desenvolvimento dos quadros de competencia precisa de acompanhar o ritmo de chegada de novos navios e tecnologias. A orientacao interina fornece uma base essencial. A partir dai, a formacao ao nivel da empresa desempenha um papel critico na traducao desse quadro para a prontidao operacional do dia a dia.
Entao, como e que uma boa pratica se parece na realidade? Considero util pensar em tres niveis:
O primeiro e um nivel de base: os principios comuns em torno de combustiveis de baixo ponto de inflamacao, toxicidade, risco criogenico e de alta tensao, espacos confinados, ventilacao, dececao de gas, resposta a emergencias, fatores humanos e seguranca de processos.
O segundo e a competencia especifica para cada combustivel: o que e efetivamente diferente entre amonia, metanol e um sistema de baterias, para o qual os quadros interinos nos dao agora uma base de trabalho.
O terceiro e a aplicacao especifica ao navio e a funcao: o que o Comandante, o Chefe de Maquinas, o ETO, as equipas de conves e de maquinas, o superintendente em terra e a equipa de resposta a emergencias precisam de fazer de forma diferente.
Enquanto aguardamos um quadro regulatorio mais completo, manteria duas verdades em simultaneo.
Sim, o setor precisa de um quadro mais harmonizado, ou arriscamos que cada estado de bandeira, sociedade classificadora, armador, formador e fabricante interprete a competencia de forma diferente.
Mas nao, aguardar pela regulamentacao perfeita nao e uma opcao, porque os navios ja estao a avancar mais rapido do que o ciclo regulatorio.
O caminho pratico e o alinhamento em torno dos quadros interinos. E esse alinhamento passa por tres perguntas:
Que competencia e necessaria?
Que evidencia a comprova?
E como e que a experiencia operacional retorna para o padrao?
E com este pensamento que saio do painel IMEC. A descarbonizacao nao sera concretizada apenas pela regulamentacao. Sera concretizada por pessoas que compreendem os riscos, confiam nos sistemas e estao habilitadas a agir quando as coisas nao correm conforme planeado.
Para quem quiser assistir a sessao completa, a gravacao esta disponivel aqui.

International Chamber of Shipping (2025) Maritime Just Transition Task Force launches first interim seafarer training frameworks for the use of ammonia, methanol and hydrogen as fuel. Available at: https://www.ics-shipping.org/press-release/maritime-just-transition-task-force-launches-first-interim-seafarer-training-frameworks-for-the-use-of-ammonia-methanol-and-hydrogen-as-fuel/ (Last Accessed: 19 June 2026).
Lloyd's Register Foundation (2025) Maritime Just Transition Task Force launches first interim seafarer training frameworks for the use of ammonia, methanol and hydrogen as fuel. Available at: https://www.lrfoundation.org.uk/news/maritime-just-transition-task-force-launches-first-interim-seafarer-training-frameworks-for (Last Accessed: 19 June 2026).